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Poema

Augusto dos Anjos - Vênus morta

A Via-Sacra Azul do amor primeiro 
Veste hoje o luto que a desgraça veste 
No miserere do meu desespero... 


Augusto dos Anjos - Vênus morta - Poema

A Via-Sacra Azul do amor primeiro 
Veste hoje o luto que a desgraça veste 
No miserere do meu desespero... 

- Lotus diluído n'alma dum cipreste! 
Como um lilás eternizando abrolhos 
Tinge de roxo o arminho da grinalda, 
Rola a violeta santa dos teus olhos 
- Tufos de goivo em conchas de esmeralda. 

No vácuo imenso das desesperanças 
E dos passados viços, 
Recordo o beijo que te dei nas tranças 
Emolduradas num florão de riços. 

E como um nume de pesar, plangente, 
Guarda a saudade que levou do Mame, 
Eu guardo o travo deste beijo ardente 
E a Nostalgia desta Pátria - a Carne. 





Sonho abraçar-te, pálida camélia, 
Mas neste sonho, langue e seminua, 
Pareces reviver a antiga Ofélia, 
Opalescência trágica da lua! 

Tu, oh Quimera, de reverberantes 
E rubras asas de beliantos pulcros, 
Crava-lhe n'alma o tirso das bacantes, 
Brande-lhe n'alma o frio dos sepulcros. 

Reza-lhe todo o cantochão memento 
Dessa Missa de amor da Extrema Agrura, 
Abençoada pelo meu tormento 
E consagrada pela sepultura. 

E que ela suba na serena gaza 
Dos mistérios dourados e serenos 
À terra Ideal das púrpuras em brasa 
E ao Céu doirado e auroreal de Vênus! 






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