MENU

Poema

Augusto dos Anjos - Estrofes sentidas

Eu sei que o Amor enche o Universo todo 
E se prende dos poetas à guitarra 
Como o Pólipo que se agarra ao lodo 
E a ostra que às rochas eternais se agarra. 


Augusto dos Anjos - Estrofes sentidas - Poema

Eu sei que o Amor enche o Universo todo 
E se prende dos poetas à guitarra 
Como o Pólipo que se agarra ao lodo 
E a ostra que às rochas eternais se agarra. 

O amor reduz-nos a uniformes placas, 
Uniformiza todos os anelos 
E une organizações fortes e fracas 
Nos mesmos laços e nos mesmos elos. 

Por muito tempo eu lhe sorvi o aroma, 
E, desvairado, sem prever o abismo 
Fiz desse amor um ídolo de Roma, 
Eleito Deus no altar do fetichismo! 

Tudo sacrifiquei para adorá-lo 
- Mas hoje, vendo o horror dos meus destroços, 
Tenho vontade de estrangulá-lo 
E reduzi-lo muitas vezes a ossos! 





Todo o ser que no mundo turbilhona 
Veja do Amor, à luz das minhas frases, 
Uma montanha que se desmorona, 
Estremecendo em suas próprias bases. 

E em qualquer parte do Universo veja - 
Sombrias ruínas de um solar egrégio 
E o desmoronamento duma Igreja 
Despedaçada pelo sacrilégio. 

A Natureza veste extraordinárias 
Roupagens de ouro. Além, nas oliveiras, 
Aves de várias cores e de várias 
Espécies, cantam óperas inteiras. 

A compreensão da minha niilidade 
Aumenta à proporção que aumenta o dia 
E pouco a pouco o encéfalo me invade 
Numa clareza de fotografia. 





Na área em que estou, ao matinal assomo, 
Passa um rebanho de carneiros dóceis... 
E o Sol arranca as minhas crenças como 
Boucher de Perthes arrancava fósseis. 

Observo então a condição tristonha 
Da Humanidade, ébria de fumo e de ópio, 
Tal qual ela é, e não tal qual a sonha 
E a vê o Sábio pelo telescópio. 

O Sábio vê em proporções enormes 
Aquilo que é composto de pequenas 
Partes, construindo corpos quase informes 
E aquilo que é uma parcela apenas. 

Da observação nos elevados montes 
Prefiro, à nitidez real dos aspectos, 
Ver mastodontes onde há mastodontes 
E insetos ver onde há somente insetos. 





A inanidade da Ilusão demonstro 
Mas, demonstrando-a, sinto um violento 
Rancor da Vida - este maldito monstro 
Que no meu próprio estômago alimento! 

Nisto a alma o oficio da Paixão entoa 
E vai cair, heroicamente, na água 
Da misteriosíssima lagoa 
Que a língua humana denomina Mágoa! 

Dos meus sonhos o exército desfila 
E, à frente dele, eu vou cantando a nênia 
Do Amor que eu tive e que se fez argila, 
Como Tirteu na guerra de Messênia! 

Transponho assim toda a sombria escarpa 
Sinistro como quem medita um crime... 
E quando a Dor me dói, tanjo minha harpa 
E a harpa saudosa a minha Dor exprime! 





Estes versos de amor que agora findo 
Foram sentidos na solidão de uma horta, 
À sombra dum verdoengo tamarindo 
Que representa a minha infância morta!



More by SANDERLEY

TRENDS - SONG LYRICS
Radar by Sanderlei
Everything in the musical world / Tudo que rola no mundo musical / ทุกอย่างในโลกดนตรี / Все в музыкальном мире / 音楽界のすべて.

Just Go - Viagem Volta ao Mundo
#JustGo - Sanderlei Silveira